A Desejada das Gentes, de Machado de Assis 

Fonte: 

ASSIS, Machado de. Obra Completa. Rio de Janeiro : Nova Aguilar 1994. v. II. 

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A Desejada das Gentes 

 AH! CONSELHEIRO, a comea a falar em verso. 
 Todos os homens devem ter uma lira no corao,  ou no sejam 
homens. Que a lira ressoe a toda a hora, nem por qualquer motivo, no o 
digo eu, mas de longe em longe, e por algumas reminiscncias particulares... 
Sabe por que  que lhe pareo poeta, apesar das Ordenaes do Reino e dos 
cabelos grisalhos?  porque vamos por esta Glria adiante, costeando aqui a 
Secretaria de Estrangeiros. . . L est o outeiro clebre. . . Adiante h uma 
casa.. 
 Vamos andando. 
 Vamos... Divina Quintlia! Todas essas caras que a passam so outras, 
mas falam-me daquele tempo, como se fossem as mesmas de outrora;  a lira 
que ressoa, e a imaginao faz o resto. Divina Quintlia! 
 Chamava-se Quintlia? Conheci de vista, quando andava na Escola de 
Medicina, uma linda moa com esse nome. Diziam que era a mais bela da 
cidade. 
 H de ser a mesma, porque tinha essa fama. Magra e alta? 
 Isso. Que fim levou? 

 Morreu em 1859. Vinte de abril. Nunca me h de esquecer esse dia. Vou 
contar-lhe um caso interessante para mim, e creio que tambm para o 
senhor. Olhe, a casa era aquela... Morava com um tio, chefe de esquadra 
reformado, tinha outra casa no Cosme Velho. Quando conheci Quintlia... 
Que idade pensa que teria, quando a conheci? 
 Se foi em 1855... 
 Em 1855. 
 Devia ter vinte anos. 
 Tinha trinta. 
 Trinta? 
 Trinta anos. No os parecia, nem era nenhuma inimiga que lhe dava essa 
idade. Ela prpria a confessava e at com afetao. Ao contrrio, uma de 
suas amigas afirmava que Quintlia no passa-va dos vinte e sete; mas como 
ambas tinham nascido no mesmo dia, dizia isso para diminuir-se a si 
prpria. 
 Mau, nada de ironias; olhe que a ironia no faz boa cama com a saudade. 
 Que  a saudade seno uma ironia do tempo e da fortuna? Veja l; 
comeo a ficar sentencioso. Trinta anos; mas em verdade, no os parecia. 
Lembra-se bem que era magra e alta; tinha os olhos como eu ento dizia, 
que pareciam cortados da capa da ltima noite, mas apesar de noturnos, sem 
mistrios nem abismos. A voz era brandssima, um tanto apaulistada, a boca 
larga, e os dentes, quando ela simplesmente falava, davam-lhe  boca um ar 
de riso. Ria tambm, e foram os risos dela, de parceria com os olhos, que me 
doeram muito durante certo tempo. 
 Mas se os olhos no tinham mistrios... 
 Tanto no os tinham que cheguei ao ponto de supor que eram as portas 
abertas do castelo, e o riso o clarim que chamava os cavaleiros. J a 
conhecamos, eu e o meu companheiro de escritrio, o Joo Nbrega, ambos 
principiantes na advocacia, e ntimos como ningum mais; mas nunca nos 
lembrou namor-la. Ela andava ento no galarim; era bela, rica, elegante, e 
da primeira roda. Mas um dia, no antigo Teatro Provisrio entre dois atos 
dos Puritanos, estando eu num corredor, ouvi um grupo de moos que 
falavam dela, como de uma fortaleza inexpugnvel. Dous confessaram haver 
tentado alguma cousa, mas sem fruto; e todos pasmavam do celibato da 
moa que lhes parecia sem explicao. E chalaceavam: um dizia que era 
promessa at ver se engordava primeiro; outro que estava esperando a 
segunda mocidade do tio para casar com ele; outro que provavelmente 
encomendara algum anjo ao porteiro do cu; trivialidades que me 
aborreceram muito, e da parte dos que confessavam t-la cortejado ou 
amado, achei que era uma grosseria sem nome. No que eles estavam todos 
de acordo  que ela era extraordinariamente bela; a foram entusiastas e 
sinceros. 
 Oh! ainda me lembro!... era muito bonita. 
 No dia seguinte, ao chegar ao escritrio, entre duas causas que no 
vinham, contei ao Nbrega a conversao da vspera. Nbrega riu-se do 
caso, refletiu, e depois de dar alguns passos, parou diante de mim, olhando, 
calado.  Aposto que a namoras? perguntei-lhe.  No, disse ele; nem tu? 

Pois lembrou-me uma cousa: vamos tentar o assalto  fortaleza? Que 
perdemos com isso? Nada, ou ela nos pe na rua, e j podemos esper-lo, ou 
aceita um de ns, e tanto melhor para o outro que ver o seu amigo feliz.  
Ests falando srio?  Muito srio.  Nbrega acrescentou que no era s 
a beleza dela que a fazia atraente. Note que ele tinha a presuno de ser 
esprito prtico, mas era principalmente um sonhador que vivia lendo e 
construindo aparelhos sociais e polticos. Segundo ele, os tais rapazes do 
teatro evitavam falar dos bens da moa, que eram um dos feitios dela, e 
uma das causas provveis da desconsolao de uns e dos sarcasmos de 
todos. E dizia-me:  Escuta, nem divinizar o dinheiro, nem tambm bani-
lo; no vamos crer que ele d tudo, mas reconheamos que d alguma cousa 
e at muita cousa,  este relgio, por exemplo. Combatamos pela nossa 
Quintlia, minha ou tua, mas provavelmente minha, porque sou mais bonito 
que tu. 

 Conselheiro, a confisso  grave, foi assim brincando...?
 Foi assim brincando, cheirando ainda aos bancos da academia, que nos
metemos em negcio de tanta ponderao, que podia acabar em nada, mas
deu muito de si. Era um comeo estouvado, quase um passatempo de
crianas, sem a nota da sinceridade; mas o homem pe e a espcie dispe.
Conhecamo-la, posto no tivssemos encontros freqentes; uma vez que
nos dispusemos a uma ao comum, entrou um elemento novo na nossa
vida, e dentro de um ms estvamos brigados.
 Brigados?
 Ou quase. No tnhamos contado com ela, que nos enfeitiou a ambos,
violentamente. Em algumas semanas j pouco falvamos de Quintlia, e com
indiferena; tratvamos de enganar um ao outro e dissimular o que
sentamos. Foi assim que as nossas relaes se dissolveram, no fim de seis
meses, sem dio, nem luta, nem demonstrao externa, porque ainda nos
falvamos, onde o acaso nos reunia; mas j ento tnhamos banca separada.
 Comeo a ver uma pontinha do drama. . .
 Tragdia, diga tragdia; porque da a pouco tempo, ou por desengano
verbal que ela lhe desse, ou por desespero de vencer, Nbrega deixou-me s
em campo. Arranjou uma nomeao de juiz municipal l para os sertes da
Bahia, onde definhou e morreu antes de acabar o quatrinio. E juro-lhe que
no foi o inculcado esprito prtico de Nbrega que o separou de mim; ele,
que tanto falara das vantagens do dinheiro, morreu apaixonado como um
simples Werther.
 Menos a pistola.
Tambm o veneno mata; e o amor de Quintlia podia dizer-se alguma
cousa parecido com isso, foi o que o matou, e o que ainda hoje me di. . .
Mas, vejo pelo seu dito que o estou aborrecendo.. .
 Pelo amor de Deus. Juro-lhe que no; foi uma graola que me escapou.
Vamos adiante, conselheiro; ficou s em campo.
 Quintlia no deixava ningum estar s em campo,  no digo por ela,
mas pelos outros. Muitos vinham ali tomar um clix de esperanas, e iam
cear a outra parte. Ela no favorecia a um mais que a outro, mas era lhana,
graciosa e tinha essa espcie de olhos derramados que no foram feitos para

homens ciumentos. Tive cimes amargos e, s vezes, terrveis. Todo 
argueiro me parecia um cavaleiro, e todo cavaleiro um diabo. Afinal 
acostumei-me a ver que eram passageiros de um dia. Outros me metiam 
mais medo, eram os que vinham dentro da luva das amigas. Creio que houve 
duas ou trs negociaes dessas, mas sem resultado. Quintlia declarou que 
nada faria sem consultar o tio, e o tio aconselhou a recusa,  cousa que ela 
sabia de antemo. O bom velho no gostava nunca da visita de homens, com 
receio de que a sobrinha escolhesse algum e casasse. Estava to acostumado 
a traz-la ao p de si, como uma muleta da velha alma aleijada, que temia 
perd-la inteiramente. 

 No seria essa a causa da iseno sistemtica da moa? 
 Vai ver que no. 
 O que noto  que o senhor era mais teimoso que os outros. . . 
 ... Iludido, a princpio, porque no meio de tantas candidaturas 
malogradas, Quintlia preferia-me a todos os outros homens, e conversava 
comigo mais largamente e mais intimamente, a tal ponto que chegou a correr 
que nos casvamos. 
 Mas conversavam de qu? 
 De tudo o que ela no conversava com os outros; e era de fazer pasmar 
que uma pessoa to amiga de bailes e passeios, de valsar e rir, fosse comigo 
to severa e grave, to diferente do que costumava ou parecia ser. 
 A razo  clara: achava a sua conversao menos insossa que a dos outros 
homens. 
 Obrigado; era mais profunda a causa da diferena, e a diferena ia-se 
acentuando com os tempos. Quando a vida c embaixo a aborrecia muito, ia 
para o Cosme Velho, e ali as nossas conversaes eram mais freqentes e 
compridas. No lhe posso dizer, nem o senhor compreenderia nada, o que 
foram as horas que ali passei, incorporando na minha vida toda a vida que 
jorrava dela. Muitas vezes quis dizer-lhe o que sentia, mas as palavras 
tinham medo e ficavam no corao. Escrevi cartas sobre cartas; todas me 
pareciam frias, difusas, ou inchadas de estilo. Demais, ela no dava ensejo a 
nada, tinha um ar de velha amiga. No princpio de 1857 adoeceu meu pai em 
Itabora; corri a v-lo, achei-o moribundo. Este fato reteve-me fora da Corte 
uns quatro meses. Voltei pelos fins de maio. Quintlia recebeu-me triste da 
minha tristeza, e vi claramente que o meu luto passara aos olhos dela... 
 Mas que era isso seno amor? 
 Assim o cri, e dispus a minha vida para despos-la. Nisto, adoeceu o tio 
gravemente. Quintlia no ficava s, se ele morresse, porque, alm dos 
muitos parentes espalhados que tinha, morava com ela agora, na casa da Rua 
do Catete, uma prima, D. Ana, viva; mas,  certo que a afeio principal iase embora e nessa transio da vida presente  vida ulterior podia eu 
alcanar o que desejava. A molstia do tio foi breve; ajudada da velhice, 
levou-o em duas sema-nas. Digo-lhe aqui que a morte dele lembrou-me a de 
meu pai, e a dor que ento senti foi quase a mesma. Quintlia viu-me 
padecer, compreendeu o duplo motivo, e, segundo me disse depois, estimou 
a coincidncia do golpe, uma vez que tnhamos de o receber sem falta e to 
breve. A palavra pareceu-me um convite matrimonial; dois meses depois 

cuidei de pedi-la em casamento. D. Ana ficara morando com ela e estavam 
no Cosme Velho. Fui ali, achei-as juntas no terrao, que ficava perto da 
montanha. Eram quatro horas da tarde de um domingo. D. Ana, que nos 
presumia namorados, deixou-nos o campo livre. 

 Enfim! 
 No terrao, lugar solitrio, e posso dizer agreste, proferi a primeira 
palavra. O meu plano era justamente precipitar tudo, com medo de que, 
cinco minutos de conversa me tirassem as foras. Ainda assim, no sabe o 
que me custou; custaria menos uma batalha, e juro-lhe que no nasci para 
guerras. Mas aquela mulher magrinha e delicada impunha-se-me, como 
nenhuma outra, antes e depois... 
 E ento? 
 Quintlia adivinhara, pelo transtorno do meu rosto, o que lhe ia pedir, e 
deixou-me falar para preparar a resposta. A resposta foi interrogativa e 
negativa. Casar para qu? Era melhor que ficssemos amigos como dantes. 
Respondi-lhe que a amizade era, em mim, desde muito, a simples sentinela 
do amor; no podendo mais cont-lo, deixou que ele sasse. Quintlia sorriu 
da metfora, o que me doeu, e sem razo; ela, vendo o efeito, fez-se outra 
vez sria e tratou de persuadir-me de que era melhor no casar.  Estou 
velha, disse ela; vou em trinta e trs anos.  Mas se eu a amo assim mesmo, 
repliquei, e disse-lhe uma poro de cousas, que no poderia repetir agora. 
Quintlia refletiu um instante; depois insistiu nas relaes de amizade; disse 
que, posto que mais moo que ela, tinha a gravidade de um homem mais 
velho e inspirava-lhe confiana como nenhum outro. Desesperanado, dei 
algumas passadas, depois sentei-me outra vez e narrei-lhe tudo. Ao saber da 
minha briga com o amigo e companheiro da academia, e a separao em que 
ficamos, sentiu-se, no sei se diga, magoada ou irritada. Censurou-nos a 
ambos, no valia a pena que chegssemos a tal ponto.  A senhora diz isso 
porque no sente a mesma cousa.  Mas ento  um delrio?  Creio que 
sim; o que lhe afiano  que ainda agora, se fosse necessrio, separar-me-ia 
dele uma e cem vezes; e creio poder afirmar-lhe que ele faria a mesma 
cousa. Aqui olhou ela espantada para mim, como se olha para uma pessoa 
cujas faculdades parecem transtornadas; depois abanou a cabea, e repetiu 
que fora um erro; no valia a pena.  Fiquemos amigos, disse-me, 
estendendo a mo.   impossvel; pede-me cousa superior s minhas 
foras, nunca poderei ver na senhora uma simples amiga; no desejo imporlhe nada; dir-lhe-ei at que nem mais insisto, porque no aceitaria outra 
resposta agora. Trocamos ainda algumas palavras, e retirei-me... Veja a 
minha mo. 
 Treme-lhe ainda... 
 E no lhe contei tudo. No lhe digo aqui os aborrecimentos que tive, nem 
a dor e o despeito que me ficaram. Estava arrependido, zangado, devia ter 
provocado aquele desengano desde as primeiras semanas, mas a culpa foi da 
esperana, que  uma planta daninha, que me comeu o lugar de outras 
plantas melhores. No fim de cinco dias sa para Itabora, onde me chamaram 
alguns interesses do inventrio de meu pai. Quando voltei, trs semanas 
depois, achei em casa uma carta de Quintlia. 

 Oh! 
 Abri-a alvoroadamente: datava de quatro dias. Era longa; aludia aos 
ltimos sucessos, e dizia cousas meigas e graves. Quintlia afirmava ter 
esperado por mim todos os dias, no cuidando que eu levasse o egosmo at 
no voltar l mais, por isso escrevia-me, pedindo que fizesse dos meus 
sentimentos pessoais e sem eco uma pgina de histria acabada; que ficasse 
s o amigo, e l fosse ver a sua amiga. E conclua com estas singulares 
palavras: "Quer uma garantia? Juro-lhe que no casarei nunca." Compreendi 
que um vnculo de simpatia moral nos ligava um ao outro; com a diferena 
que o que era em mim paixo especfica, era nela uma simples eleio de 
carter. ramos dois scios, que entravam no comrcio da vida com 
diferente capital: eu, tudo o que possua; ela, quase um bolo. Respondi  
carta dela nesse sentido; e declarei que era tal a minha obedincia e o meu 
amor, que cedia, mas de m vontade, porque, depois do que se passara entre 
ns, ia sentir-me humilhado. Risquei a palavra ridculo, j escrita, para poder 
ir v-la sem este vexame; bastava o outro. 
 Aposto que seguiu atrs da carta?  o que eu faria, porque essa moa, ou 
eu me engano ou estava morta por casar com o senhor. 
 Deixe a sua fisiologia usual; este caso  particularssimo. 
 Deixe-me adivinhar o resto; o juramento era um anzol mstico; depois, o 
senhor, que o recebera, podia desobrig-la dele, uma vez que aproveitasse 
com a absolvio. Mas, enfim, correr  casa dele. 
 No corri; fui dous dias depois. No intervalo, respondeu ela  minha carta 
com um bilhete carinhoso, que rematava com esta idia: "no fale de 
humilhao, onde no houve pblico." Fui, voltei uma e mais vezes e 
restabeleceram-se as nossas relaes. No se falou em nada; ao princpio, 
custou-me muito parecer o que era dantes; depois, o demnio da esperana 
veio pousar outra vez no meu corao; e, sem nada exprimir, cuidei que um 
dia, um dia tarde, ela viesse a casar comigo. E foi essa esperana que me 
retificou aos meus prprios olhos, na situao em que me achava. Os boatos 
de nosso casamento correram mundo. Chegaram aos nossos ouvidos; eu 
negava formalmente e srio; ela dava de ombros e ria. Foi essa fase da nossa 
vida a mais serena para mim, salvo um incidente curto, um diplomata 
austraco ou no sei que, rapago, elegante, ruivo, olhos grandes e atrativos, 
e fidalgo ainda por cima. Quintlia mostrou-se-lhe to graciosa, que ele 
cuidou estar aceito, e tratou de ir adiante. Creio que algum gesto meu, 
inconsciente, ou ento um pouco da percepo fina que o cu lhe dera, levou 
depressa o desengano  legao austraca. Pouco depois ela adoeceu; e foi 
ento que a nossa intimidade cresceu de vulto. Ela, enquanto se tratava, 
resolveu no sair, e isso mesmo lhe disseram os mdicos. L passava eu 
muitas horas diariamente. Ou elas tocavam, ou jogvamos os trs, ou ento 
lia-se alguma cousa; a maior parte das vezes conversvamos somente. Foi 
ento que a estudei muito; escutando as suas leituras vi que os livros 
puramente amorosos achava-os incompreensveis, e, se as paixes a eram 
violentas, largava-os com tdio. No falava assim por ignorante; tinha 
notcia vaga das paixes, e assistira a algumas alheias. 
 De que molstia padecia? 

 Da espinha. Os mdicos diziam que a molstia no era talvez recente, e ia 
tocando o ponto melindroso. Chegamos assim a 1859. Desde maro desse 
ano a molstia agravou-se muito; teve uma pequena parada, mas para os fins 
do ms chegou ao estado desesperador. Nunca vi depois criatura mais 
enrgica diante da iminente catstrofe; estava ento de uma magreza 
transparente, quase fluida; ria, ou antes, sorria apenas, e vendo que eu 
escondia as minhas lgrimas, apertava-me as mos agradecida. Um dia, 
estando s com o mdico, perguntou-lhe a verdade; ele ia mentir, ela disselhe que era intil, que estava perdida.  Perdida, no, murmurou o mdico. 
 Jura que no estou perdida?  Ele hesitou, ela agradeceu-lho. Uma vez 
certa que morria, ordenou o que prometera a si mesma. 
 Casou com o senhor, aposto? 
 No me relembre essa triste cerimnia; ou antes, deixe-me relembr-la, 
porque me traz algum alento do passado. No aceitou recusas nem pedidos 
meus; casou comigo  beira da morte. Foi no dia 18 de abril de 1859. Passei 
os ltimos dois dias, at 20 de abril ao p da minha noiva moribunda, e 
abracei-a pela primeira vez feita cadver. 
 Tudo isso  bem esquisito. 
 No sei o que dir a sua fisiologia. A minha, que  de profano, cr que 
aquela moa tinha ao casamento uma averso puramente fsica. Casou meio 
defunta, s portas do nada. Chame-lhe monstro, se quer, mas acrescente 
divino. 
FIM 


